terça-feira, 6 de dezembro de 2016

FAMÍLIA VICENTINA
Papa reconhece mártires da Guerra Civil Espanhola

O Vaticano publicou (2 de Dezembro) o decreto através do qual o Papa Francisco reconheceu o martírio de mais de 20 sacerdotes, religiosos e leigos assassinados por ódio à fé durante a guerra civil espanhola, entre 1936 e 1937.
De acordo com o comunicado da sala de imprensa da Santa Sé, Francisco promulgou um decreto respeitante ao "martírio dos Servos de Deus Vicente Queralt Lloret, sacerdote professo da Congregação da Missão" e de mais 20 companheiros".
"Entre os quais seis sacerdotes professos da mesma Congregação, cinco sacerdotes diocesanos, duas religiosas Filhas da Caridade e sete leigos da Associação Filhos de Maria da Medalha Milagrosa", pode ler-se.
Na sequência de um encontro com prefeito da Congregação das Causas dos Santos, o cardeal Angelo Amato, o Papa argentinou autorizou ainda o referido dicastério a promulgar decretos que reconhecem milagres, martírios e virtudes heróicas de mais uma dezena de pessoas, de diversos países.
Entre as quais dos Servos de Deus João Schiavo, sacerdote professo da Congregação de São José (Brasil); morto em 27 de janeiro de 1967; Teófilo Matulionis, arcebispo-bispo de Kaišiadorys (Lituânia); assassinado por ódio à fé em 20 de agosto de 1962; e Stanley Francesco Rother, sacerdote diocesano (EUA); assassinado por ódio à fé em 28 de julho de 1981.
Agência Ecclesia02 de Dezembro de 2016


sábado, 3 de dezembro de 2016

 S. Francisco Xavier – Padroeiro das Missões
Francisco Xavier nasce perto de Pamplona, Espanha, a 7 de Abril de 1506, quinto filho de D. João de Jassu, Senhor de Xavier e Ydocin, e de Dona Maria de Azpilcueta e Xavier. Aos 19 anos está em Paris, instalado no Colégio de Santa Bárbara, a estudar Humanidades. Forma-se depois em Filosofia e Teologia pela Sorbonne. Aí conhece Inácio de Loyola que viria a ser fundador da Companhia de Jesus. Torna-se seu amigo e seguidor.




A 15 de Agosto de 1534, na Capela de Montmartre, faz votos de pobreza e castidade perpétua. Recebe as Ordens Sacras em Veneza a 24 de Junho de 1537, seguindo depois para Roma onde se põe à disposição do Papa para o serviço da Igreja. A 15 de Março de 1540 parte de Roma com destino a Lisboa, onde chega três meses depois.

Enviado pelo Papa Paulo III, era a resposta de Roma aos apelos veementes do Rei de Portugal, D. João III, preocupado com a evangelização da Índia e a dilatação da Fé no Oriente.

De Portugal para o Oriente
Chegado a Lisboa, o Pe. Francisco Xavier refugia-se no Hospital de Todos-os-Santos onde de imediato se dedica aos enfermos e ao ensino da doutrina cristã. Ganha em pouco tempo a percepção do universalismo dos portugueses e de Lisboa larga, a 7 de Abril de 1541, na armada das índias, para ser Apóstolo e Santo. Antes da partida, o Rei D. João III entrega-lhe o Breve Papal nomeando-o Núncio Apostólico nas Partes da índia, com amplos poderes para estabelecer e manter a Fé em todo o Oriente.


Depois de uma breve passagem em Moçambique, chega a Goa a 6 de Maio de 1542. Logo se apresta a ir oferecer os seus serviços a D. João de Albuquerque que pastoreia a Diocese de Goa, na altura a mais dilatada da Cristandade. Rapidamente se apercebe de uma vida religiosa local muito precária, e carenciada de assistência. Os pouco mais de dez anos que se seguem até à sua morte, vai vivê-los de forma febril, andando por terra e por mar, sem nunca parar, num frenesim constante a espalhar a palavra Divina, a levar a Boa Nova.

Logo em Outubro de 1542 parte para o Sul da índia a evangelizar os pescadores da Costa da Pescaria. Visita Comorim, Manapar e Tuticorim. Em Outubro de 1543 regressa a Goa. Fundada canonicamente a Companhia de Jesus, o Padre Francisco Xavier é nomeado Superior de toda a Missão da índia Oriental, desde o Cabo da Boa Esperança até à China. Volta à Costa da Pescaria. Visita depois Cochim, Malaca, as Molucas, Macassare, Ceilão. Ensina, baptiza, e concilia príncipes desavindos.

Morte em Sanchoão
A 15 de Agosto de 1549, via Cochim e Malaca e navegando pelos mares da China, chega a Kagochima, na costa meridional do Japão. De regresso a Cochim envia cartas ao Rei D. João III. Solicita-lhe reforços missionários. Tentando a missionação na China, para lá se dirige a bordo da nau Santa Cruz. Em Singapura volta a escrever a D. João III. Em Setembro de 1552 desembarca na Ilha de Sanchoão, a dez léguas da Ilha de Macau, na China.

Aí adoece gravemente. Sofrendo vertigens e convulsões, minado por febres devoradoras, cheio de privações, morre só e pobre na noite de 2 para 3 de Dezembro de 1552. Havia percorrido milhares de quilómetros, cruzado várias vezes os mares do Índico e do Pacífico, visitado mais de cinco dezenas de reinos, fundado Igrejas, reorganizado as missões.

Exemplo de humildade e de solidariedade cristã, de amor ao próximo e de evangélica pobreza, era venerado por milhões de pessoas de todas as condições sociais, de todas as idades, de todas as etnias. A fama de Santo, o "Santo de Goa", tinha chegado a toda a parte, as suas virtudes eram exaltadas.

Em 17 de Fevereiro de 1553 o seu corpo é removido e levado para Malaca e daqui para Goa, onde chega a 16 de Março de 1554. A recebê-lo, numa impressionante manifestação de Fé, estão o Vice-Rei, o Clero, a Nobreza e o imenso Povo.

A subida aos altares
A devoção de que já gozava em vida vai crescer extraordinariamente depois da morte. Os seus milagres tornam-se conhecidos. A 25 de Outubro de 1605 Francisco Xavier é beatificado por Paulo V e Gregório XV canoniza-o a 12 de Março de 1622. A 24 de Fevereiro de 1748 Bento XIV proclama-o Padroeiro do Oriente.

Em 1904 Pio X coloca sob a sua protecção a Sagrada Congregação da Propagação da Fé. Em 1927, Pio XI constitui-o, com Santa Teresa do Menino Jesus, protector de todas as obras missionárias.
O seu corpo repousa numa riquíssima urna de prata, na Basílica do Bom Jesus, na Velha Goa.

Para lá se dirigem todos os anos milhares de peregrinos, crentes e mesmo não crentes, venerando o "Homem Bom", o Apóstolo incansável. A Igreja festeja-o todos os anos no dia 3 de Dezembro.


In “Paróquia de S. Francisco Xavier – Lisboa”

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Fórum Ecuménico Jovem

Atacar e matar todas as fomes

‘Dai-lhes vós de comer’ (Mt 14,16) foi a ordem de Jesus que se transformou em lema da XVIII edição do Fórum Ecuménico Jovem (FEJ 2016), realizado a 12 de Novembro no Seminário de S. Joana Princesa.

D. António Moiteiro, Bispo de Aveiro, cumpriu bem o seu papel de anfitrião dando as boas vindas e participando neste FEJ. D. Sifredo Teixeira, Presidente do Conselho Português das Igrejas Cristãs, também saudou os cerca de 300 jovens idos de muitos pontos do país.

O aprofundamento do tema coube ao P. João Gonçalves, responsável pela coordenação da pastoral prisional católica e por diversas obras sociais em Aveiro. Chamou a atenção para a tentação de ‘mandar a malta embora’ quando o que se exige é convidar a sentar e repartir o pão, como fez Jesus. É preciso ver a multidão com problemas, senti-los, ter compaixão e tentar resolver. O tema do FEJ surgiu do Ano Europeu contra o Desperdício Alimentar, proposto pela União Europeia.  Por isso, o P. João lembrou números da FAO /ONU que dizem que cada pessoa da Europa desperdiça 132 kgs de comida por ano! Evocou ainda outras fomes como a de escuta, de afectos e de valores. Concluiu que temos que ter olhos no coração e ser a voz e a vez dos sem vez e sem voz.

O tempo de reflexão em grupos (20) permitiu aprofundar o tema e reflectir a partir de questões e de objectos escolhidos pela organização.

Mantendo uma tradição que vem do I FEJ (1999), o almoço foi partilhado, sendo um tempo e  um espaço de  confraternização entre os jovens vindos de várias partes de Portugal e pertencentes a diversas Igrejas.

A tarde deveria ser de saída às ruas de Aveiro para descobrir muros e pontes construídas para unir ou separar as pessoas. Mas a chuva obrigou a alterar planos e os 20 grupos partilharam as reflexões, com o P. João comentar e complementar. Também houve tempo para se escutar a história dos XVII FEJs já realizados, bem como de outras iniciativas promovidas pela Equipa Ecuménica Jovem.

Momento alto foi o da Celebração Final com a participação das três centenas de jovens e de uma quinzena de hierarcas das Igrejas. Simbólica foi a partilha de um grande pão pelos jovens e a colocação, junto ao altar da Capela do Seminário, de numerosos produtos de higiene que os jovens ofereceram às Florinhas do Vouga, uma das Obras Sociais da Diocese de Aveiro.

Na hora da despedida era grande a cumplicidade que já se sentia entre os jovens e a gratidão especial aos departamentos de Aveiro da Pastoral Juvenil das Igrejas Católica e Metodista, anfitriões. As Igrejas organizadoras (Católica, Metodista, Lusitana e Presbiteriana) prometem já a edição do XIX FEJ em Novembro de 2017.
Obras Missionárias Pontifícias

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Nota Pastoral da CEP sobre os quatro séculos de evangelização
e três de presença em Portugal da Congregação da Missão


1. Carisma Vicentino

Completam-se em 2017 quatro séculos após S. Vicente de Paulo, animado de zelo apostólico, ter recebido a inspiração celeste que o chamava a fundar uma comunidade de missionários devotados à evangelização dos pobres e à criteriosa formação espiritual, doutrinal e pastoral do clero. Graças à fecundidade apostólica dessa intuição fundacional viriam a nascer a Congregação da Missão, a Companhia das Filhas da Caridade e a plêiade de instituições de serviço fraterno aos mais pobres e marginalizados, de que as Conferências Vicentinas são hoje uma das expressões sociais mais conhecidas. Celebra-se igualmente no ano de 2017 o terceiro centenário da entrada em Portugal do carisma vicentino trazido pelo instituto da Congregação da Missão.
A Conferência Episcopal Portuguesa congratula-se com a feliz efeméride e associa-se à ação de graças e louvor que toda a Família Vicentina eleva ao Senhor nesta data comemorativa. Com efeito, as duas datas evocam a missão eclesial de S. Vicente de Paulo e do carisma que o inspirou a favor dos pobres, da reforma do clero e da caridade que ele soube converter em inúmeros projetos sociais. E se altas figuras da aristocracia francesa de então encontraram nele conselho e assistência espiritual, foram os pobres do mundo rural e das cidades que mais o inquietaram, estimulando-o à prática das obras de misericórdia espirituais e corporais. Escolheu, por isso, servir pastoralmente a Igreja como pároco numa humilde aldeia rural e, pouco a pouco, foi descobrindo que a verdadeira dimensão da pobreza tanto diz respeito à falta de pão como à necessidade de uma fé viva e esclarecida. Daí a urgência que sentiu de promover três linhas de ação principais: organizar as caridades, grupos de cristãos leigos dedicados a servir os pobres; efetuar missões populares que despertem e eduquem na fé o povo humilde dos campos; dinamizar a formação cultural e pastoral do clero através de conferências e da organização dos seminários.
Da vasta obra caritativa do fundador da Congregação da Missão e das Filhas da Caridade, lembremos aqui duas lições notáveis. A guerra da Fronda, que devastou com os seus tentáculos de violência várias regiões da França, espalhando fome, doença e toda a espécie de misérias, gerou multidões de desalojados que, fugindo das frentes de batalha, acorriam às cidades. Em vez de melhorarem a situação, tornavam-na muitas vezes mais grave ainda. Com imaginação e empenho, logo cuidou de pôr em ação um projeto destinado a conter a desumanidade dessas migrações. Passou a enviar, por diversos caminhos, alimentos e outros bens de primeira necessidade, evitando que fossem os pobres a fazer longas caminhadas, tornando assim a vida do povo menos sofrida. Esta capacidade de mobilizar recursos materiais e humanos de forma bem organizada e, por isso, mais eficaz, descobriu-a ele muito cedo.
Alertado, quando se preparava para celebrar a missa dominical, para a existência, em lugar remoto, de uma família cujos membros estavam todos gravemente doentes, apelou do púlpito ao coração dos ouvintes para levarem ajuda a tão dolorosa situação. A resposta fraterna dos presentes foi generosa e rápida. Mas como assegurar continuidade a esse gesto episódico de caridade? Vicente de Paulo percebeu então, por experiência, que caridade sem organização pode resultar em falta de caridade. E tornou-se mestre na arte de organizar e gerir as caridades, sem jamais esquecer que a caridade de Cristo deve animar sempre a dedicação e serviço dos pobres. Ação social, evangelização, formação do clero, eis três campos fundamentais nos quais trabalhou S. Vicente de Paulo e em que continua vivo o carisma que imprimiu nas obras que fundou. Foi, por isso, com justiça e verdade, chamado por S. João Paulo II “homem de ação e de oração, de organização e de imaginação, de direção firme e de humildade, homem de ontem e de hoje” (Alocução à Assembleia Geral da Congregação da Missão, em 1986).
2. Presença em Portugal

Os filhos de S. Vicente de Paulo entraram em Portugal em começos do século XVIII. Foi apoiado num breve de Clemente XI que autorizava a erigir a Congregação da Missão no reino de Portugal que o padre José Gomes da Costa (1667-1725), natural de Torre de Moncorvo, e superior da casa de Monte Célio, em Roma, onde tinha ingressado na congregação vicentina, chegou a Lisboa, em novembro de 1716, para dar início à fundação. Tem a data de 20 de maio de 1717 o documento em que o Procurador do Supremo Tribunal da Justiça do Reino concede existência legal à Congregação da Missão. A Província de Roma, donde vinha o fundador, enviou de imediato quatro sacerdotes e um irmão para formarem a primeira comunidade. E, em 1720, era fundada a primeira casa da Missão, na quinta de Rilhafoles, em Lisboa, casa central donde irradiará intensa e frutuosa atividade votada à formação do clero e às missões populares. Até 1834, a vida da Congregação desenvolveu-se à volta de três grandes centros: Lisboa (casa de Rilhafoles); Braga (casa da Cruz) e Évora (Seminário). A par desta ação missionária dentro do país, ocorreu também intensa atividade apostólica no Oriente (seminários de Goa e Macau, missões em Pequim, Nanquim e Malaca), e ainda no Brasil, com a obra missionária do padre António Ferreira Viçoso, que será depois sétimo bispo de Mariana.
Após a extinção em 1834, a vida da Congregação da Missão começou a ser restabelecida a partir de 1857. Durante este segundo período, que se prolongou até à implantação da República, em 1910, as atividades principais da Congregação da Missão foram as missões populares, a formação da juventude em colégios, a fundação e acompanhamento de conferências vicentinas e associações religiosas, nomeadamente na Igreja de S. Luís dos Franceses, em Lisboa, na residência de Santa Quitéria, Felgueiras, e no Funchal, Madeira, onde, além da capelania do Hospício Princesa Dona Amélia, assumiram a direção do Seminário Maior da Diocese. Este surto de crescimento foi bruscamente interrompido em 1910, ano em que foram assassinados dois virtuosos missionários, os padres Alfredo Fragues, Provincial, e Bernardino Barros Gomes, ilustre homem de ciência.
Outra vez renascida das cinzas em 1927, os esforços dos res­ponsáveis da Província Portuguesa da Congregação da Missãoconcentraram-se na organização das comunidades e respetivas obras, e ainda na formação de novos missionários. Com essa finalidade, ergueram vários Seminários: Pombeiro e Oleiros (Felgueiras) e, mais tarde, Mafra e Braga. Novas condições e exigências de formação académica e pedagógica obri­garam à criação de Lares de Estudantes no Ameal, Porto, e na Luz, em Lisboa. Nova fase da Missão Ad Gentesteve início em 1940, com a fundação de comunidades missionáriasem Moçambique. Na década de 1960, metade dos seus membros, quase sempre os mais jovens, rumava a Moçambique. Esta situação exigiu a criação de uma estrutura jurídica mais ágil e bem inserida no terreno moçambicano. Nascia, assim, em 1965, a Vice-Província. Além da presença missionária junto das populações autóctones, assumiram, na linha do carisma do Santo Fundador e em condições de grande exigência e responsabilidade eclesial, a obra dos seminários. Dirigiram a formação do clero moçambicano em três seminários. Por estas instituições de formação passou a maior parte do clero local, bem como muitos dos bis­pos desse país.
Além de obras de apostolado missionário já existentes em Chaves, Viseu, Felgueiras, Lisboa e Funchal, o regresso de alguns missionários, após a independência de Moçambique, permitiu que fossem assumidas obras diocesanas, designadamente paróquias nas dioceses de Santarém, Beja e Portalegre-Castelo Branco. Voltou, depois, com renovada entrega e dinâmica evangelizadora a tradicional obra das missões populares. De norte a sul, equipas de Padres, Filhas da Caridade e Leigos, preparadas para anunciar a mensagem do Evangelho em novos contextos sociais e culturais, percorreram inúmeras paróquias, a convite dos respetivos bispos e párocos. Entre essas renovadas iniciativas de evangelização contam-se as Comunidades Familiares de Caridade, pequenos grupos de agentes pastorais disponíveis para assegurar continuida­de à evangelização realizada nas missões populares.
3. Desafios do carisma vicentino para o nosso tempo

O coração do carisma vicentino é o exercício da caridade cujo modelo foi dado pelo divino Mestre. S. Vicente de Paulo resumiu as virtudes do Filho de Deus a duas principais: união com o Pai e caridade para com os homens. A atualização deste carisma passa hoje pelo compromisso com os mais pobres, que de todos os cristãos exige ações concretas que, em espírito de missão e de serviço à Igreja, se hão de traduzir em obras mais do que em palavras. Urge, antes de mais, revisitar as origens e divulgar o pensamento e a obra do santo da caridade como imperativo de programas pastorais.
Este “vinho novo” do carisma terá, com certeza, consequências na atividade pastoral e na qualidade do serviço à Igreja em geral. Importa também perceber que as instituições estão chamadas a ser a expressão encarnada do carisma. Mas as instituições vivem mergulhadas na história de sociedades em acelerada transformação. É, por isso, necessário escutar os sinais dos tempos e discernir, nas situações difíceis e tão frequentemente desumanas, o que ao apelo dos pobres tem a dizer com obras de misericórdia o carisma vicentino. E há de ter a coragem de reajustar estruturas de outros tempos, como se reajustam as roupas que vestem um corpo que cresce e se transforma.
Neste processo de escuta e discernimento em ordem à tomada de decisão sobre a participação nas estruturas eclesiais, a visão profética de aggiornamento de S. João XXIII continua de plena atualidade. Abrir horizontes, reavivar o espírito missionário e estar disponível para ir mais longe, é próprio de homens chamados por Deus a continuar a obra salvífica de seu Filho. Sem otimismos ingénuos, vivemos tempos de abertura a projetos novos, reconhecendo que é sempre possível fazer-se ao largo e participar em iniciativas eclesiais que vão para além da nossa realidade geográfica. No mundo globalizado de hoje, as fronteiras são sobretudo a estreiteza do horizonte que acomodamos nas nossas mentes e que nos podem impedir de chegar mais longe.
O carisma vicentino é portador de um código genético de conteúdo espiritual que se transmite, de geração em geração, a todos os ramos da família. Esse núcleo de graça, que o Espírito anima, faz com que ela viva em saudável e contínua “inconformidade com as coisas do mundo presente” (Rm 12,12), num processo de busca constante.
Enquanto dom celeste, esse núcleo de graça tem a marca da intemporalidade e apela a uma renovação permanente. Com a coragem dos profetas, a visão dos místicos, o zelo dos missionários, a simplicidade dos homens de coração puro, e impelidos pela caridade, podem os filhos espirituais de S. Vicente de Paulo continuar a fazer o que o Filho de Deus fazia na terra. Chamados para evangelizar os pobres, têm como missão anunciar-lhes a paz e a justiça que vem com o Reino de Deus. Aos homens que, neste mundo de crise e desamparo, continuam marcados pelo infortúnio, como desempregados, refugiados, excluídos e vítimas de cada vez mais refinadas formas de pobreza, devem dar razões à esperança de um mundo mais justo e fraterno.
A Conferência Episcopal exorta, em Cristo, os herdeiros do carisma de S. Vicente de Paulo, em Portugal, a sentirem-se comprometidos com todas as situações que degradam a dignidade do homem. À luz da mensagem de misericórdia de que dá testemunho o pontificado do Papa Francisco, crentes e não crentes estão agora mais atentos à desumanidade das periferias humanas e existenciais. Caminha ao encontro dessa mensagem de amor misericordioso o carisma vicentino, que deve colocar o mundo dos pobres no centro de atenção de todos os cristãos e homens de boa vontade.


Fátima, 10 de novembro de 2016

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

PPCM - Encontro Vocacional

12 e 13 de Novembro, no Seminário de São José – CVE

Pssssst, onde vais? Que pretendes fazer da tua vida? Queres ter êxito (o que significa isso?), ser feliz?… disso estou certo. Tudo isso que deveria ser simples, apresenta-se hoje cheio de “emboscadas” que é preciso saber entender!
Tu tens apenas esta vida… vale a pena parar um pouco e assumi-la plenamente. Tu és o único que podes responder, num primeiro momento, à questão da tua vocação. Se não o fizeres agora, chegará o dia em que te questionarás: «que ando a fazer eu da minha vida?»
Quantas vezes já escutaste que toda a vocação é dom e mistério…sê digno desse dom! A tua vida será mais ou menos bela quanto mais sentires que te entregaste a um ideal digno desse nome.
Dizes que queres amar e ser amado…contudo, todos nós somos espectadores de “cenas” de amores falhados. Se tu queres, realmente, amar e ser amado, procura Jesus Cristo. Ele ama-te tal como tu és. Ele só te olha (ch)amando-te. Cristo (ch)ama-te, volta-Se para ti, olha-te e «ocupa-Se a amar-te», tal como outrora olhou para o jovem rico: “fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele” (Mc 10, 21). O seu amor é gratuito, isso é certo, no entanto, não está em saldo. Ele ama-te para te tornar semelhante a Ele.
Por isso, não te escondas, no marasmo do quotidiano e da maioria ou na alucinação das experiências fortes, há Alguém que te chAMA!
Com este texto faço o convite para mais um encontro vocacional, este a realizar nos dias 12 e 13 de novembro, no Seminário de São José - CVE, em Felgueiras.

P. Fernando Soares, CM


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Semana dos Seminários destaca vocação sacerdotal
que nasce da misericórdia

“Comunidades e famílias devem ser espaços onde os jovens aprendem a «acolher, compreender e perdoar», realça responsável pelo setor”

A Semana dos Seminários 2016, que vai decorrer entre 6 e 13 de novembro, tem como base o Jubileu da Misericórdia e destaca a importância desta componente no desenvolvimento das vocações.

“A vocação sacerdotal não nasce somente de um chamamento, de um desejo ou de um impulso interior; ela é fruto do encontro do Deus misericordioso com o homem perdido e que é encontrado, com o homem morto e que revive”, realça D. Virgílio Antunes, presidente da Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios, na mensagem para a iniciativa deste ano.

Intitulada “Movidos pela Misericórdia de Deus”, esta semana quer sublinhar os seminários como lugares onde os jovens aprendem “a misericórdia” do Pai para depois se poderem entregar “ao serviço dos outros”. Pretende recordar também a importância do papel da educação, quer na família quer nas várias etapas dentro da Igreja Católica, para o surgimento de mais crianças e jovens dispostos a consagrarem a sua vida a Cristo.

“Uma família que não vive relações de comunhão a partir da fé e onde cada um não está disposto a acolher, compreender e perdoar no seguimento de Jesus, não fomenta os gérmenes da vocação”, escreve D. Virgílio Antunes. E “uma educação cristã que não favorece experiências fortes de encontro com Deus nos momentos de espiritualidade, de oração, de reconciliação, de perdão, de partilha das misérias humanas, não pode ter consequências vocacionais”, acrescenta o bispo de Coimbra.

Estar aberto a uma missão na Igreja Católica, ao sacerdócio, ao celibato, a fazer das comunidades a própria família, implica uma conversão radical que só é possível em quem faz na sua vida a experiência da “misericórdia de Deus”, aponta o presidente da Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios. “Nenhuma lei deste mundo, nenhum conselho, nenhum raciocínio da razão têm a mesma capacidade para mover a mente, a vontade e o coração”, conclui.

guião da Semana dos Seminários, já disponível, apresenta algumas propostas para a vivência deste tempo, que é sobretudo de ação de graças e de oração pelo surgimento de novas vocações. Entre elas a oração para a semana, uma vigília de oração e um terço vocacional.


Lisboa, 27 out 2016 (Ecclesia)

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Padres Vicentinos: 25 Anos de Missão, em Santiago do Cacém

Pela porta das “Missões” entraram os Padres Vicentinos pelo Alentejo dentro. A sua presença nas terras alentejanas já vem de longe. Nos anos quarenta do século passado, o Bispo Soldado, D. José do Patrocínio Dias, convidou os filhos de S. Vicente de Paulo a percorrer a vasta área da sua Diocese como missionários itinerantes. Por ali andaram vários padres vicentinos. Palmilharam milhares de quilómetros ao longo do Litoral, anunciando o Evangelho e organizando as comunidades. Os anos de 1943 e 1944 foram de muita actividade partilhada com obreiros doutras famílias religiosas.
Seguiu-se um longo período de ausência. No final dos anos setenta, com o Bispo D. Manuel Falcão inicia-se uma outra temporada missionária no Alentejo: uma comunidade vicentina (1977), em Almodôvar, e a animação missionária, a partir de 1981, com os Padres M. Martins e João Maria. Não houve paróquia da diocese que não tivesse vivido uma Missão Popular, sendo muitas as equipas missionárias que trabalharam neste sector.
Em Almodôvar começa-se a programar o trabalho em moldes diferentes e pensa-se numa missão vicentina em todo o concelho (8 Paróquias e mais de 3 dezenas de Montes). Foi uma Missão preparada e realizada no outono-primavera de 1985-1986, uma experiência forte e válida para toda a Congregação. Almodôvar passou a ser a ponta avançada de toda a Província Portuguesa missionária.
Em Novembro de 1986, foi assinado com a Diocese um acordo de 3 anos no qual se previa a mudança de lugar. Demorou um pouco mais. Mértola foi uma primeira aposta, mas Santiago do Cacém, foi o lugar de destino da Comunidade.

Por Terras de Miróbriga
A vida é feita de mudanças. A Congregação da Missão tem um cariz de “itinerância da Missão”. E assim aconteceu. Em finais de Agosto de 1991, a nova equipa estava de malas aviadas para partir. Para trás ficava Almodôvar. Lá à frente estavam à espera as Paróquias de Santiago do Cacém, Abela, S. Bartolomeu, S. Francisco e Santa Cruz.
“Subiremos montanhas sagradas…” foi o cântico processional bem apropriado para quem realmente, a 1 de Setembro, subiu ao monte encimado por um Castelo e pela Igreja Matriz Santiago do Cacém. A Eucaristia foi presidida pelo P. António Teixeira, novo pároco, e concelebrada por Mons. Torrão, Cón. Ireneu, pároco cessante, e pelos Vigários paroquiais, Padres Fonseca Soares e Leitão dos Santos.
Proclamado o Evangelho, Mons. Torrão, em nome do Senhor Bispo de Beja, depois de saudar todos os presentes, apresentou o novo pároco e os seus colaboradores e leu os documentos apropriados para a tomada de posse. O novo pároco, depois de prestar o seu compromisso, apresentou-se a si mesmo como os demais colaboradores não esquecendo o Irmão Licínio.
A adaptação foi-se processando. Os movimentos foram surgindo. A história foi-se concretizando com o trabalho pastoral de cada dia. Ao fim de 3 anos, o Ir. Licínio partiu, em Missão, para Moçambique e o senhor Bispo solicitou à Comunidade para assumir a paroquialidade de S. Domingos e de Vale d’ Água.

Uma nova equipa, Missão Popular, ordenação presbiteral
A Comunidade foi renovada. Em Agosto de 1997, chegou o P. João Maria que, como pároco, preparou a cidade e as paróquias limítrofes para uma Missão Popular. O P. Leitão continuou o seu múnus de professor e juntou-se ao grupo, o Diác. Carlos César que, em tempos de estudante de Teologia, fizera aqui o estágio pastoral. Em 1999, houve festa grande em Santiago do Cacém: O Diác. César foi ordenado presbítero, por D. António Vitalino, ficando a fazer parte da comunidade, como o Padre novo. Outros confrades foram passando e, em 2000, o P. Armando Lopes partiu para a Casa do Pai, ficando sepultado no cemitério local.
Adivinhava-se nova mexida na Comunidade: O P. João Maria foi eleito Visitador (Provincial) e teve que partir. Os Padres Magalhães, Leitão, José Maria e Carlos César constituem a nova equipa. Outra equipa, e mais outra, e em Outubro de 2011, o P. Pedro Guimarães, moderador, e os Padres Agostinho e Azevedo, são apresentados como “párocos in sollidum”. A Comunidade vicentina de Santiago do Cacém assume a pastoral paroquial, a animação da pastoral missionária da Diocese e o serviço de capelania do Hospital Litoral Alentejano (HLA).

25 anos, a fazer o quê?
Sabemos que a gente das nossas paróquias não é muito praticante. É uma população predominantemente alentejana de origem e cultura. Por isso, pode-se dizer que o trabalho pastoral nesta zona foi e tem de ser essencialmente missionário.
Para servir esta gente no contexto do carisma vicentino, do nosso jeito próprio de evangelizar os mais próximos e os mais distantes, é imperativo “ir ao encontro” da gente e da cultura locais.
Fez e faz parte dos horizontes pastorais e do plano pastoral da Comunidade Vicentina de Santiago do Cacém ao longo destes 5 lustros: visitar as famílias e ir aos locais de encontro das gentes (escutar e auscultar); visitar os Lares/Centros de Dia, onde reside parte considerável dos idosos da terra e onde trabalham muitas pessoas; acompanhar os movimentos e serviços existentes, abrindo brechas para a entrada de sangue novo; apoiar e investir nas camadas jovens, na catequese, nos escuteiros, na JMV, procurando envolver as famílias; assegurar a boa preparação dos Sacramentos, fomentando a participação no CPB e no CPM; dar primazia às Famílias, animando as Equipas de Nossa Senhora e outros casais que nos procuram; dar tarefas e responsabilizar os leigos para uma participação activa; valorizar a preparação e celebração da Confirmação, desafiando os crismandos para um compromisso sério com Cristo e a Igreja (vida da paróquia); criar dinâmicas para a formação dos intervenientes na liturgia: leitores, acólitos, coros; apoiar e criar respostas concertadas de ajuda e apoio aos mais indefesos e sós, com grupo de visitadores e Conferências Vicentinas; reforçar a dimensão missionária não só fazendo e revitalizando as Missões realizadas na zona, mas também colaborar na animação missionária diocesana (2011-2015) e incrementar a presença junto dos doentes do HLA e seus familiares e junto dos profissionais da saúde.

Celebrações Jubilares
Ao longo dos anos os planos diocesanos apostaram na iniciação cristã como objectivo prioritário. É um caminho que a Comunidade Vicentina, com as várias equipas que trabalham em Santiago, tem procurado inculcar na acção pastoral ao longo destes 25 anos. Semear é o trabalho do missionário, estar junto e aberto aos mais pobres e sofredores, é desafio permanente. Levar todos e cada um à conversão de vida e à adesão a Jesus Cristo é tarefa principal de quem escolheu viver segundo o carisma de Vicente de Paulo. É um trabalho árduo, que exige dedicação, paciência e perseverança.
Temos consciência e sabemos que ainda há um longo caminho a percorrer. O sustento para a caminhada vem da Palavra de Deus, dos Sacramentos, da Oração e da Comunidade. Aí se encontra a força para vencer dificuldades e combater a rotina, ou mesmo, a inércia.
Quando os Padres Vicentinos celebram 25 anos de Missão em Santiago do Cacém e se preparam para viver os 400 anos de Carisma e os 300 anos de presença em Portugal, olhar para trás, diz-nos que muito foi feito. Olhando com olhos de ver, descobrimos que nem tudo foi bem feito. Resta-nos acreditar que podemos fazer mais e melhor, aceitando reptos e desafios do Ressuscitado, do Povo de Deus, da Igreja local e seus responsáveis e sendo fiéis ao carisma do nosso Santo fundador.


P. Agostinho Sousa, CM